A Mãe que não pediu por um filho autista.

Eu não pedi por um filho autista. Eu o ganhei. Assim como não pedi por tanta coisa na vida, mas aceitei como sendo minha.


A mãe de uma criança diferente não nasce pronta; nasce com seu filho, cresce, amadurece e aparece.
Ninguém quer ser mãe de uma criança que vai exigir todo o nosso tempo, dinheiro e lágrimas de frustração. Queremos filhos lindos, saudáveis e normais. Não, normais não: queremos filhos inteligentes, brilhantes, que vão crescer para transformar o mundo.

Achamos que somos os nossos filhos. Acreditamos que refletem quem somos, o que fazemos e nossa própria capacidade. Ter um filho brilhante é motivo de orgulho, pois significa que também devemos valer muito para colocar um ser humano tão cheio de qualidades no mundo. Ao contrario, ter um filho com alguma deficiência ou autismo significa que ‘falhamos’ em alguma coisa; não éramos tão inteligentes, saudáveis ou especiais de alguma forma, como pensávamos. Nossos filhos são nossos espelhos, certo?… Errado.

Um bebê é a soma da combinação de genes de seus pais e de vários antepassados, mais as influências do meio ambiente. Tudo junto e misturado. A nossa parte é bem pouca, e tanto pode ser mais quanto menos usada nessa batida de bolo genética.

Heroína x Vítima

Ter um filho muito inteligente ou severamente autista não diz nada sobre nós, como indivíduos. Nessa combinação única de genes, que gera nossos filhos, vemos crianças de pessoas com uma inteligência abaixo da média conquistando espaços inimagináveis para seus pais, enquanto outras crianças, intelectualmente abaixo da média, têm como pais cientistas, médicos, engenheiros e outros com uma suposta mente brilhante. Também vemos pais simpáticos de crianças antipáticas ou vice-versa. Características que nem sempre condizem com as de seus genitores.

Apesar de sabermos relativizar a afirmativa acima, de que um filho deficiente não nos define, ninguém quer ter um filho autista, muito menos um autista com muitos desafios.

Nunca encontrei uma gestante que dissesse “ Tomara que seja autista!”

Fato é que, no mundo inteiro, cerca de 77 milhões de mulheres deram à luz crianças diferentes, sentenciadas pela sociedade antes mesmo de terem uma chance de provar que não havia necessidade para isso.

Seja qual for o lugar do mundo, mãe é mãe. Mãe de autista é mãe de autista, também. Não somos heroínas – qualquer mãe que ama o filho se torna uma guerreira. Tampouco somos vitimas – Deus não nos castiga e o universo não está contra nós. Entre os dois extremos existe uma escala enorme de sentimentos, surgidos das nossas experiências passadas e de nossas expectativas. A cada dia somos uma mãe diferente: às vezes guerreira, às vezes derrotada, às vezes cheias de energia, às vezes querendo sair correndo e sumir do mundo. Na maternidade de uma criança deficiente, não aconselho ninguém a pensar que é heroína ou vitima. Porém, se é para decidir se é branco ou preto, decida então pelo branco. Afinal, se você achar que vai vencer, tem mais chances de superar os problemas do que considerar-se vitima da vida. Não sou eu que o diz, mas a Programação Neuro Linguística (PNL): a arte de (se) transformar. O que queremos ver, iremos enxergar. Traduzindo: Atitude.

Atitude

O que você acha? O que você quer? Como você age? Você quer pensar como ‘todo mundo’, ou você quer ser feliz, mesmo achando alguma coisa à revelia da maioria? Você se rende às expectativas da sociedade sobre o que é necessário para ser feliz, ou você é feliz independente do que outros pensam? Você precisa ser feliz todos os dias? Será que a gente aprende mais quando é feliz ou quando sofre? Será que o sofrimento não nos ensina nada?

Perguntas que devem ser respondidas com cuidado e reflexão. Respostas que só o tempo traz.

“ … Eu me recusava a ser aquela mãe coitadinha, sentada à distancia, no parque, onde todas as crianças do bairro brincavam…O que elas sabiam da minha vida? O que elas sabiam do meu amor maternal? O que elas sabiam sobre a intensidade da minha alegria quando meu filho me beijava, ou falava uma palavra?…

Inocentes… será que seus filhos, exageradamente elogiados por elas, lhes traziam tanta felicidade?… Felicidade se mede?…” ,

Riam de mim, falem pelas minhas costas, iludam-se entre si de que seus filhos (vocês) são melhores que os meus. O que pensam já não mais importa. Vocês ACHAM; eu SEI…”

Trecho do Livro Enxergando Além do Autismo, por Fatima de Kwant.

Bem-vinda, autoestima

O que fazer para superar a sensação ruim que costuma acompanhar a baixa autoestima? Levantá-la.

Somos quem que queremos ser. O que queremos, buscamos conseguir. O que buscamos, colocando em ação, vai entrar em movimento. A autoestima sempre está presente, mesmo quando a opinião alheia a empurra para a sombra.

Você que é mãe de autista, já se perguntou “por que NÃO eu?”

Já refletiu se sua felicidade (ou da sua família) depende do que outros dizem? Você deixa os outros sentirem por você?

Lembra do dia em que seu bebê nasceu e você sentiu aquele amor indescritível?… Volte àquele momento. Nada mudou, só a sua expectativa e a da sociedade. Se a da sociedade vai ser ruim, contrabalance o score com a sua esperança.

Existe vida depois do autismo, e como… Existe alegria, humor e muito amor. O diagnóstico não define o futuro (desenvolvimento) do seu filho; você sim.

Revele sua autoestima deixando de se espelhar na condição do seu filho, mas deixar que ele se espelhe na sua. Ajude-o a descobrir a autoestima, descobrindo a sua, primeiro.

Um passo de cada vez.

A chave do sucesso só você tem. Ela está nas suas mãos e não deve ser dada a mais ninguém, muito menos àqueles que querem decidir por você o que é ter sucesso na vida, ou do que você precisa para ser feliz. Ouse pensar diferente. Ouse agir diferente. Ouse sentir diferente. Seja uma mãe diferente.

Assumir a responsabilidade pela sua vida, e o que você vai decidir fazer dela, vai abrir um leque de possibilidades para você e todos à sua volta.

Mãe de autista é mãe. Mãe é mulher. Mulher é um ser humano. Seres humanos são capazes de qualquer coisa. Escolha o que quer ser capaz de fazer.

Com carinho,

Fatima

*Fatima de Kwant é jornalista, escritora, especialista em autismo, e mãe de um rapaz autista que em 20 anos passou do autismo severo ao leve. Fatima é também criadora do projeto Autimates, que tem como propósito levar informação, conscientização e inspiração sobre o TEA para todo o mundo.

Por Fatima de Kwant (Holanda, 23-02-2017)

Imagens: Google

 

Comentários

Leave a comment