Crônicas de uma mãe enlouquecida

Parte II

Minha cabeça só faltava explodir, de tanto que eu pensava. Algumas vezes já me peguei dando tapas em minha própria cara na tentativa de dispersar coisas ruins que eu imaginava. E se eu não souber amamentar e minha filha passar fome? E se eu for pegar ela no colo e ela cair? Como que se desengasga um bebê?  Será que ela vai ser feliz? AHHHHHHH, QUE HORRORRRRR!

Teve um dia, em especial,  que marcou muito minha gestação.  Eu cheguei do trabalho e quando entrei em casa encontrei todo o quartinho da Luana montado e decorado com ursos marrons e detalhes cor de rosa. A surpresa fofa ficou por conta do meu marido que  havia pensado em cada detalhe,  tudo no capricho.
Berço, ok; guarda-roupas, ok; cômoda, ok; roupinhas, ok; carrinho, bebê conforto,  estoque de fraldas e tudo para higiene pessoal, ok. 
Ah, então posso ficar tranquila,  minha filha já tem tudo, certo?
Pra falar a real, passei nove meses me martirizando, me cobrando e morrendo de medo,  mas foi no dia 14/07/13, depois de um período de mais ou menos treze horas de trabalho de parto, que descobri que a Luana precisava de muitoooo mais coisas do que as que havíamos comprado.
Para que ela viesse ao mundo, aquele serzinho de 3.244 quilos e 51 centímetros, dependeu da minha força e coragem e também precisou das orações da nossa família e dos nossos amigos que ficaram na sala de espera da maternidade torcendo pela gente. Isso não dava pra ter comprado.
Minha filha também precisou que sua mãe e seu pai abdicassem dos barzinhos da sexta feira e até mesmo de noites inteiras de sono, porque ela necessitava de cuidados, de colo, de peito. Essas coisas também não se compram, a dedicação não está disponível nem nas melhores lojas.
Passou aquela fase de recém nascida, mas mesmo assim Luana continuou nos surpreendendo, primeiro por sua incrível capacidade de nos fazer ama-lá incondicionalmente,  depois por ser capaz de despertar em todos, mas em mim, principalmente, habilidades que eu jamais pensei em ter.
Nunca pensei que pudesse segura-la com tanta força para a enfermeira colocar o acesso naquele bracinho miúdo, no dia em que ela ficou doentinha; Nunca pensei conseguir ser tão firme para que ela entendesse seus limites; Nunca achei que fosse chorar de saudade em seu primeiro dia de aula; Não me imaginava protegendo o corpo dela de um revólver com meu próprio corpo, sem titubear nem um segundo. Gente, nada disso dava para ter comprado!
O que eu quero dizer é que, como mãe, já me preocupei muito sobre o quanto poderia fazer minha filha feliz,  mas na maioria das vezes estava me prendendo a detalhes que jamais superariam atitudes como sentar no chão e brincar com ela por uma hora, ou abraça-la forte durante uma crise de birra, respirar e dizer: “tudo bem, a mamãe está aqui”, ou perder parte da madrugada inventando várias estórias de princesas.
Enfim, amar vai muito além de a possibilidade de pagar a melhor escola, de dar as melhores roupas, de seguir rigorosamente o horário de dormir, de ensinar inglês a criança de três anos, isso tudo é lindo e muito bom, mas não é tudo. 
Crianças não sabem o valor da Baby Alive, nem do Lego Polícia,  crianças gosta de toque, de carinho,  de afeto, de apego e de presença.  Crianças não entendem sobre preços, mas sim sobre valores. E as coisas mais valorosas são aquelas que não podem.ser compradas, apenas sentidas.

Marli dos Reis é jornalista,  cronista e mãe da Luana, que tem um pouquinho mais de dois anos.

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