Forçar uma criança a comer é falta de respeito diz um pediatra Espanhol

Quando li a chamada dessa reportagem, já comecei a “julgar” essa frase do pediatra. Como assim falta de respeito querer ver meu filho se alimentando bem? Está certo e confesso que ja fiz  muitas vezes malabares e tentei distrai los para se alimentarem melhor ou pelo menos comer o que eu acho que seria necessário pela idade. Adorei a reportagem dele e me fez muito repensar na forma de agir perante a alimentação dos meus filhos.

González é defensor do aleitamento materno sob livre demanda e da cama compartilhada. O médico critica o castigo e defende a criação com apego e o respeito às crianças. É autor do best-seller “Bésame Mucho – Como Criar seus Filhos com Amor”, lançado no Brasil, em 2015, pela Editora Timo. No livro, questiona comportamentos adotados para que o filho não fique mimado, como não pegá-lo no colo ou dar atenção quando chora.

Pai de três filhos, González vem neste mês ao Brasil para promover o lançamento do livro “Meu Filho Não Come!”, também da Timo, que já está em pré-venda.

Na publicação, não há dicas de como fazer as crianças rasparem o prato. O que ele quer é explicar que elas comem o que precisam –ainda que não atendam às expectativas dos pais– e que devem aprender a se alimentar sozinhas.

Em entrevista ao UOL, concedida por e-mail, González fala sobre os erros que os adultos cometem à mesa e de como incentivar os filhos a adotarem uma alimentação mais saudável.

UOL – Há pais que obrigam o filho a comer e fazem ameaças. O que você pensa sobre essas condutas?

Carlos González – Forçar a comer é inútil, porque as crianças comem sem que seja necessário obrigá-las. Além disso, a conduta é contraproducente, porque a única coisa que os pais conseguem é que os filhos odeiem a comida e mais ainda “aquela” comida, que eles insistem em servir e que geralmente é a mais saudável. Também é perigoso quando a estratégia funciona, porque temos uma grave epidemia de obesidade infantil. Acima de tudo, esse comportamento é uma falta de respeito com a criança.

UOL – Se a criança recusa a refeição após três garfadas, significa que está satisfeita?

González – Exatamente.

UOL – Mas há crianças com problemas de apetite?

González – Há crianças que não comem o suficiente. São reconhecidas por perder peso ou ganhar muito menos peso do que o normal. Nesses casos, o que os pais precisam fazer é consultar um médico para ver o que acontece com ela. Uma criança doente perde o apetite e emagrece. Mas, mesmo nesses casos, não se deve obrigá-la a comer. É preciso descobrir o problema, tratá-la adequadamente e, quando estiver curada, comerá sozinha.

UOL – Em seu livro, você diz que muitos pais têm alta expectativa quanto à fome dos filhos. O que significa isso?

González – Por anos, os pediatras deram recomendações exageradas sobre a quantidade de comida a ser dada às crianças. Na Espanha, por exemplo, era costume recomendar para um bebê de seis meses um purê de frutas contendo meia banana, meia pera, meia maçã e meia laranja. Para uma criança de sete quilos. Na mesma proporção, eu teria de comer cinco bananas, cinco peras, cinco maçãs e cinco laranjas. E eu não consigo comer isso. É claro que quase nenhum bebê come toda essa quantidade de frutas e, se o faz, não janta depois.

UOL – Há como calcular a quantidade de comida adequada, por idade?

González – O cálculo é muito fácil de fazer: olhe para o que seu filho come, é justamente essa quantidade que ele deve comer –a menos que seja obeso, então, deverá comer menos. Não há outra maneira de descobrir a não ser observar. É preciso ter em mente que nem todas as crianças comem a mesma quantidade, alguns comem o dobro e até o triplo de outras da mesma idade.

UOL – Se a criança recusa a comida, mas pede para fazer pequenos lanches pouco tempo depois, os pais devem dar?

González – Se a criança pedir espontaneamente –sem que os pais ofereçam– outros alimentos e se o pedido for razoável, não há razão para não dar. Agora, se o filho pedir doces, salgadinhos ou ainda algo que os pais não tenham à mão naquele momento –por exemplo, se não há tempo para preparar um macarrão ou se não há iogurtes na geladeira–, é só dizer educadamente: “Sinto muito, querido, isso não posso dar”.

UOL – Esconder alimentos no prato do filho que ele geralmente rejeita é uma tática válida?

González – Se a receita original tem aquele ingrediente que ele costuma rejeitar, não há problema em oferecer. Agora, colocar um ingrediente que não condiz com a receita e achar que a criança não vai perceber, parece-me bastante inútil. Por exemplo, colocar espinafre no molho de tomate. Dá para acreditar que é possível usar a verdura sem que o molho mude de cor ou sabor? É desnecessário fazer isso para que a criança coma meio grama de espinafre.

UOL – Quando a criança recusa um alimento, a opinião dela é definitiva?

González – A opinião dela não é definitiva. A melhor maneira –e isso não é garantia de sucesso– de uma criança aceitar comidas novas é colocar esse alimento repetidamente na mesa, sem fazer comentário algum, sem insistir, pressionar ou oferecer prêmios, caso ela experimente. É preciso ter em mente que há mudanças normais na aceitação de novos alimentos. Normalmente, os bebês comem de tudo –até jornal. Após um ano, começam a rejeitar as coisas que antes comiam e não aceitam alimentos novos. Na adolescência, voltam a aceitar coisas novas e, muitas vezes, com entusiasmo.

UOL – Qual é a forma mais eficiente de incentivar as crianças a comerem bem?

González – O importante é que os pais tenham bons hábitos alimentares. Bebam apenas água –não refrigerante, suco ou álcool; comam frutas de sobremesa, em vez laticínios ou bolos; tenham sempre verduras e legumes na mesa, e não abusem do sal, do açúcar ou da gordura. Se os pais comem bem, a criança acabará comendo também. Para que ela não coma doces, biscoitos e não beba refrigerante, basta não comprar esses itens. Se houver apenas alimentos saudáveis em casa, ela só vai comê-los. Entre essas coisas saudáveis, cada criança decidirá o que come, quanto come e quando come.

Fonte: Uol

Publicado por: Bianca Trindade Bresciani

Comentários

Comentários