O poder do colo!

Muita gente fala do poder do colo, mas vocês sabem dos reais benefícios que existem por traz desse simples gesto de amor e vinculo com a criança?

Colo é essencial para a saúde física, psíquica e emocional

Esta é a constatação de estudos clínicos de universidades respeitadas, como a Harvard University, e de médicos de diferentes especialidades ao atenderem pacientes de todas as idades, culturas e classes sociais

O ser humano é um ser social, que já nasce precisando de colo, de acolhimento e de apoio. O ato de dar colo, desde os primeiros dias de vida, é muito mais que simplesmente tocar, envolve o olhar, o falar, o ouvir e a empatia com os outros membros da família. É essencial para a sobrevivência e correto desenvolvimento físico, psíquico e emocional das crianças.

Mas a necessidade do colo persiste por toda a vida e receber esse apoio é fundamental em todas as etapas da vida. A partir dos 4 anos, o colo pode vir em forma de palavras, abraços, carinho, solidariedade e empatia. Nos dias atuais, nos quais as pessoas estão cada vez mais estressadas, competitivas e muitas vezes sós, o colo vem se tornando cada vez mais necessário. Este cenário tem trazido aos consultórios médicos, de diferentes especialidades, a importância de discutir a necessidade de oferecer e de saber receber o “colo”.

Para a Dra. Vera Iaconelli, psicanalista e diretora do Instituto Gerar, dar colo não é apenas importante ou necessário para a constituição subjetiva e para a saúde mental. A falta do colo pode prejudicar o desenvolvimento como um todo da criança, gerando distúrbios psíquicos, com consequências nas demais fases da vida. Isto porque o colo é uma das primeiras formas de interação da criança com outro ser humano, que diferentemente dos outros mamíferos, precisa do contato físico e emocional para se humanizar. Esse processo passa pelo ato de ser segurado e manuseado, de ouvir e ser ouvido, de sentir o cheiro das pessoas à volta, de olhar e ser visto. “Considero o afeto e o acolhimento da família e dos amigos tão importantes quanto os tratamentos e medicamentos adotados para o processo de cura”, reforça a psicanalista.

A Dra. Florência Fuks, pediatra da Clínica Conviva e do Hospital Israelita Albert Einstein, lembra que a pele é o mais extenso órgão do corpo e se desenvolve no embrião juntamente com o sistema nervoso central, passando a ser, assim, um fundamental órgão modulador de estímulos. Esta realidade biológica já deixa claro que o colo é uma necessidade primordial. “Nos primeiros momentos de vida, o bebê sequer reconhece o limite do próprio corpo e será a partir do colo, do toque, que essa sensação, essa dimensão se formará”, explica a pediatra, ao reforçar que já há algum tempo ela tem pensado em fazer uma campanha “Pró-colo”, devido às dúvidas apresentadas nos consultórios há anos.

“Quando o bebê pede colo, ele está precisando se estruturar por meio do contato com a mãe, o pai ou a pessoa mais próxima. O valor do colo e do acolhimento é muito maior do que a necessidade de ensinar limites, deixando-o sentir a falta, neste momento inicial e fundamental. A cólica, por exemplo, pode ser lida como uma solicitação de aconchego em uma fase de imaturidade e de dificuldade de organização do próprio bebê de forma autônoma. O mesmo ocorre com adolescentes, jovens e adultos em períodos de angústia, tristeza, desesperança e dor”, defende a Dra. Florencia.

Segundo a Dra. Vera, estudos sobre este tema já são realizados há décadas e uma das referências no assunto é o Dr. Donald Winnicott1, pediatra e psicanalista inglês, referência em estudos sobre a relevância do holding (abraçar, dar colo, sustentar) e do handling (manipular, manusear) para a constituição do psiquismo, desde o nascimento até a vida adulta. “Winnnicott é enfático ao relatar a importância da sustentação física e psíquica, devido ao seu trabalho de observação com mães e bebês, que lhe permitiu constatar os efeitos posteriores da qualidade do colo na vida de adultos e crianças. Com isso, ele corroborou as pesquisas de René Spitz, que demonstram que crianças tratadas em suas necessidades físicas e medicamentosas, porém desprovidas de afeto, sofriam com depressões e outras doenças psíquicas graves. Não basta alimentar, aquecer e limpar, o ser humano precisa de colo”, ressalta a psicanalista.

A Dra. Florencia, por sua vez, pondera que “pessoas com diabetes, pressão alta, crises de estresse, ansiedade, depressão, problemas cardíacos, cânceres e outras enfermidades têm de cuidar de questões orgânicas, imunológicas e genéticas, mas também de problemas paralelos frequentes, que exigem atenção, carinho, aconchego e empatia, bem como uma estruturação da dinâmica familiar, cuja influência pode ser decisiva no enfrentamento das doenças”.

Prova disto é que, quando adulto, se alguém aconchega a pessoa em momentos de doença ou necessidade, ela tem uma sensação de alívio enorme, pois todos precisam de colo e apoio nas mais variadas ocasiões, para se sentirem seguros e, simultaneamente, terem uma grande noção dos seus limites. “Um dos focos atuais da pesquisa pediátrica é o risco, os níveis e as consequências do estresse no desenvolvimento infantil. Sem dúvida, o apoio familiar tem sido enfatizado como um dos fatores de proteção e uma ferramenta fundamental para a superação saudável de situações difíceis. “No entanto, o excesso de colo e proteção também inibem a construção de estratégias de enfrentamento pela própria criança”, explica a Dra. Flor.

A importância deste apoio, desde a infância, para o tratamento de situações de estresse excessivas foi constatada no estudo “Toxic Stress” 2, do Center on the Developing Children (Centro de Desenvolvimento Infantil), da Universidade de Harvard e reforçada no Manual da Sociedade Brasileira de Pediatria3.

“É claro que ao longo da vida vão sendo desenvolvidas diferentes formas de ‘dar colo’. O bebê necessita do colo efetivo, mas a criança de quatro anos, por exemplo, já pode se contentar com o aconchego de uma palavra, um olhar, um abraço. Para adolescentes, jovens e adultos, a escuta empática pode ser suficiente”, explica a Dra. Vera. A psicanalista também esclarece que o colo é uma matriz que ajuda o sujeito a passar da dependência absoluta para a independência relativa, uma vez que os seres humanos sempre precisarão uns dos outros, embora de formas bem diferentes. “Nunca prescindiremos do colo, mas ele se transforma ao longo da vida”, diz a psicanalista.

 

 

Conclusões do Estudo sobre Estresse Tóxico – Universidade de Harvard

O futuro de qualquer sociedade depende do desenvolvimento saudável das próximas gerações, que pode ser prejudicado pela ativação excessiva ou prolongada de sistemas de resposta ao estresse no corpo e no cérebro. Os cientistas classificam as respostas ao estresse sentidas no corpo em três tipos: positivas, toleráveis e tóxicas.

O estudo da Universidade de Harvard se concentra nos efeitos do estresse tóxico nas crianças, que pode ocorrer pela vivencia de adversidades fortes, frequentes e/ou prolongadas – como abuso físico ou emocional, negligência crônica, abuso de substâncias psicoativas ou doença mental, exposição à violência ou excesso de dificuldades econômicas familiares – sem devido apoio dos adultos.

O estresse tóxico pode gerar efeitos prejudiciais, que podem vir a ser sentidos durante todas as fases da vida, por que as respostas do organismo a esta agressão podem atrapalhar o desenvolvimento da arquitetura cerebral e de outros órgãos. Com isto, podem ficar comprometidas a aprendizagem, o comportamento e a saúde.

Uma das conclusões mais importantes deste estudo foi que quando os sistemas de resposta ao estresse são ativados em um ambiente com relacionamentos de apoio, o resultado é o desenvolvimento de respostas saudáveis da mente e do corpo ao estresse, pois a pessoa sente mais segurança e tranquilidade. Diante das mesmas situações, porém com a ausência do acolhimento, com relações frágeis e desatenciosas, o resultado pode ser o dano e o enfraquecimento psíquico, prejudicando a arquitetura cerebral e repercutindo em todo o corpo ao longo da vida. Isto porque as capacidades cognitivas, emocionais e sociais são interligadas, pois o cérebro é um órgão altamente integrado e suas múltiplas funções operam em coordenação entre si. O bem-estar emocional e a competência social fornecem uma base sólida para as habilidades cognitivas emergentes e, juntos, são os tijolos e a argamassa da arquitetura cerebral.

 

Referências 1) Referências às obras de D. W. Winnicott publicadas em português:  1958: Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000.  1964: A criança e seu mundo. 6ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982.  1965: A família e o desenvolvimento individual. São Paulo: Martins Fontes, 2005.  1965: O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. 2ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.  1971: O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.  1971: Consultas terapêuticas em psiquiatria infantil. Rio de Janeiro: Imago, 1984.  1977: The Piggle: o relato do tratamento psicanalítico de uma menina. Rio de Janeiro: Imago, 1979.  1984: Privação e delinqüência. São Paulo: Martins Fontes, 1987.  1986: Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes, 1993.  1986: Holding e interpretação. São Paulo: Martins Fontes, 1991.  1987: Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes, 1988.  1987: O gesto espontâneo. São Paulo: Martins Fontes, 1990.  1988: Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990.  1989: Explorações psicanalíticas. C. Winnicott, R. Shepperd e M. Davis (orgs). 2ª reimpressão. Porto Alegre: Artes Médicas, 2005.  1993: Conversando sobre crianças [com os pais]. São Paulo: Martins Fontes, 1999.  1996: Pensando sobre crianças. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

2) Toxic stress in “Center on Developing Child” Harvard University [online] Available at: https://developingchild.harvard.edu/science/key-concepts/toxic-stress/ [Accessed 31-Jan-2019].

3) Sociedade Brasileira de Pediatria “O papel do pediatra na prevenção do estresse tóxico na infância” – Manual de Orientação 2017 disponível em http://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/2017/06/Ped.-Desenv.-Comp.-MOrient-Papel-pediatra-prev-estresse.pdf acesso em 06-Fev-2019

Texto compartilhado pela Sanofi

 

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